Nenhum amor é mais visceral do que o amor de um pai ou de uma mãe pelos filhos. E talvez por isso mesmo — pela intensidade avassaladora desse amor —, nenhum amor seja também uma fonte tão poderosa de ansiedade.
Desde o momento em que um filho chega ao mundo, algo muda de forma irreversível. Uma parte sua passa a existir fora de você — vulnerável, exposta, dependente. E o cérebro, programado para proteger o que ama, entra num estado de vigilância que nunca mais desliga completamente.
Isso é normal. É biológico. É necessário.
O problema começa quando essa vigilância ultrapassa os limites da proteção real. Quando o pai ou a mãe não consegue mais distinguir entre o perigo real e o perigo imaginado. É aí que entramos no território da ansiedade parental — um estado de preocupação excessiva, persistente e muitas vezes desproporcional com o bem-estar dos filhos.
Cláudia tinha 39 anos e dois filhos — um de sete e outro de dez anos. Chegou ao consultório encaminhada pela escola, após o filho mais velho passar a recusar-se a ir às aulas. Ao longo da conversa, ficou claro que o problema não era do menino. Era dela.
Cláudia não deixava os filhos andarem de bicicleta na rua — “porque tem carros”. Não deixava o mais velho ir à casa de amigos sem ficar do lado de fora esperando — “porque você nunca sabe”. Acordava à noite para verificar se os dois estavam respirando. Pesquisava sintomas no Google a qualquer sinal de febre — e os resultados sempre apontavam para algo grave.
“Doutor, eu sei que é exagero. Mas minha cabeça não consegue parar de pensar no que pode dar errado.”
Os efeitos da ansiedade parental não ficam contidos nos pais — eles se transferem para os filhos. Um estudo publicado no Journal of Abnormal Child Psychology mostrou que filhos de pais com ansiedade parental elevada têm duas a três vezes mais chance de desenvolver seus próprios transtornos de ansiedade — não apenas por predisposição genética, mas pelo ambiente emocional em que crescem.
Uma criança que percebe, desde cedo, que o mundo é perigoso demais para ser explorado sem supervisão constante aprende a ter medo antes mesmo de ter motivo.
Proteção ou superproteção?
Existe uma diferença fundamental entre as duas. Proteger é garantir a segurança real do filho dentro de limites razoáveis. Superproteger é eliminar qualquer possibilidade de risco — inclusive os riscos que fazem parte do desenvolvimento saudável.
A criança que nunca cai não aprende a se levantar. O adolescente que nunca erra não aprende a lidar com as consequências. O jovem que nunca enfrenta a frustração não desenvolve resiliência.
A superproteção, por mais que nasça do amor, ensina ao filho que ele não é capaz de lidar com o mundo — e isso, paradoxalmente, aumenta a ansiedade de ambos.
Com Cláudia, o trabalho foi longo e delicado. Envolvia identificar a origem da sua ansiedade — que tinha raízes numa infância marcada por imprevisibilidade e pela sensação de que o mundo não era seguro. Envolvia reconhecer que o desejo de proteger os filhos de tudo era, em parte, uma tentativa de dar a eles a segurança que ela mesma não tivera. E envolvia, gradualmente, aprender a tolerar a incerteza — porque a vida das crianças, como a de todos nós, não pode ser controlada por completo.
Meses depois, o filho mais velho voltou a ir às aulas. E Cláudia, pela primeira vez em anos, conseguiu ficar uma manhã inteira sem checar o celular esperando notícias ruins.
Se você é pai ou mãe e reconhece algo disso em você — a vigilância constante, o medo que não desliga, a dificuldade de deixar o filho ser —, saiba que cuidar da sua ansiedade é um dos maiores presentes que você pode dar aos seus filhos.
Filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais presentes — e presença de verdade só acontece quando a mente não está presa no futuro que teme.
“O filho mais protegido não é o que nunca cai. É o que aprendeu, ao lado de você, que é capaz de se levantar.”
Se quiser entender como a ansiedade se conecta com todas as outras dimensões da sua vida — física, familiar, profissional e espiritual —, conheça meu livro O Equilíbrio das Seis Saúdes. Ele foi escrito para quem quer mais do que controlar os sintomas: quer construir uma vida mais leve — para si e para quem ama.
Você se reconhece em algum aspecto da história de Cláudia? O que mais te gera ansiedade quando o assunto são os seus filhos?




